Um barulhinho no forro, um vulto rente ao rodapé, e o sonho com rato já deixou o seu recado: um arrepio, às vezes um nojo que demora a passar, e a impressão de que alguma coisa andou pela casa enquanto você dormia. O rato é o bicho que age escondido, e foi assim que Serrano, Miller e o Golden Wheel o leram.
| Variante | O que o livro leu | Fonte |
|---|---|---|
| Muitos ratos | ladrões em casa; para camundongos brincando, alegria | Golden Wheel; Artemidoro |
| Ratos roendo | prejuízo por roubo na própria casa | Golden Wheel |
| Matar um rato | vitória em qualquer disputa; pegar o ladrão | Miller; Golden Wheel |
| Pegar um rato | desprezar a baixeza alheia e passar à frente dos inimigos | Miller |
| Ratoeira | cautela contra a maledicência; cair nela, ser roubado | Serrano; Miller |
O que os livros de sonhos dizem sobre sonhar com rato?
Os dois livros de sonhos em português desta página dizem quase a mesma coisa. No Oráculo do Passado, publicado no Porto em 1883 sob o nome de Bento Serrano, o verbete do rato cabe numa linha: “Rato: inimigo occulto e perigoso.” (Na grafia de hoje, oculto.) Um folheto lisboeta da mesma época, a Nova collecção de sonhos de Josepha Maria de Mattos, repete quase palavra por palavra: “Rato—inimigo secreto e perigoso.” Nenhum dos dois separa o rato por cor, tamanho ou número.
Os livros em inglês foram no mesmo sentido. O dicionário de sonhos de Miller (1901) leu os ratos como vizinhos que enganam e prejudicam o sonhador, com brigas entre companheiros; o Golden Wheel Dream-Book (1862) viu neles sinal de ladrões por perto. Artemidoro (Oneirocrítica, século II) não fala de rato, só de camundongo, e o lê de modo bem mais doméstico: um membro da casa, porque mora debaixo do mesmo teto e come da mesma comida. Entre um e outro fica a pergunta que vale para o seu sonho: de quem é esse rato?
Tamanho e quantidade dos ratos
Estas são leituras dos antigos livros de sonhos, relatadas como história — nenhum sonho prevê o futuro.
Nenhum dos livros desta página tem verbete para rato grande ou pequeno; nessas duas cenas, o que segue é a leitura moderna.
O que significa sonhar com rato grande?
Uma ratazana do tamanho de um gato, parada no meio da cozinha, olhando de volta: o sonho com rato grande fica na memória pelo atrevimento do bicho. A leitura moderna pergunta que incômodo deixou de se esconder na sua vida e agora ocupa o cômodo inteiro: uma dívida, um conflito, um mal-estar com alguém que cresceu enquanto você fingia não ver.
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O que significa sonhar com rato pequeno?
Um ratinho que passa correndo rente ao rodapé, rápido demais para você ter certeza do que viu. Uma leitura moderna ouve aí as preocupações miúdas, as que não parecem grandes o bastante para merecer atenção e, por isso mesmo, ficam: a conta pequena que se repete, o comentário que ficou atravessado. Nenhum dos livros que citamos mede o rato.
O que significa sonhar com muitos ratos?

Ratos em fila na viga, no forro, correndo pelo chão: com muitos ratos, o sonho deixa de ser sobre um bicho e passa a ser sobre a casa inteira. O Golden Wheel Dream-Book (1862), no verbete do camundongo, para onde manda quem procura o rato, leu ver um ou vários deles como sinal de ladrões em casa em breve. Artemidoro (Oneirocrítica, século II), falando de camundongos, discordou por completo: ver muitos deles brincando alegres era, para ele, bom sinal, grande alegria e mais gente trabalhando na casa. Hoje, muitos ratos costumam acompanhar a sensação de que as pequenas coisas saíram do controle.
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Ratos roendo, pegar e matar ratos
O que significa sonhar com ratos roendo?
Às vezes o sonho nem mostra o rato: só o barulho, um roer miúdo dentro da parede ou do forro, no escuro. O Golden Wheel Dream-Book (1862) fez questão de separar essa cena: ver ratos era sinal de que um amigo seria roubado, mas ouvir ratos roendo era sinal de prejuízo por roubo na casa do próprio sonhador. A leitura moderna fica com o som: algo que trabalha fora da vista, como a preocupação que volta na hora de dormir.
O que significa sonhar que matou um rato?
Matar o rato, com a vassoura ou o chinelo, é a cena em que o sonhador deixa de ser vítima, e aqui os livros em inglês ficam do lado bom. O dicionário de sonhos de Miller (1901) leu matar um rato como vitória em qualquer disputa e, no verbete dos camundongos, matá-los como vencer os inimigos. O Golden Wheel Dream-Book (1862), no mesmo verbete do camundongo, leu a cena como flagrar um ladrão roubando o sonhador. A leitura moderna ouve a mesma virada: o que roía em silêncio foi finalmente enfrentado.
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O que significa sonhar que pegou um rato?
Pegar um rato vivo, na mão ou numa caixa, é um sonho de coragem e nojo ao mesmo tempo. O dicionário de sonhos de Miller (1901) leu pegar ratos como desprezar a baixeza dos outros e passar à frente dos inimigos com mérito. A leitura moderna pergunta o que você finalmente conseguiu nomear e segurar.
O que significa sonhar com ratoeira?
Uma ratoeira armada no canto da despensa. É o único detalhe que o Oráculo de Bento Serrano quis ler à parte, e ele o leu como conselho, não como sentença: “Ratoeira: precaução que deve tomar-se contra a maledicencia.” (Maledicência é o falar mal dos outros.) O dicionário de sonhos de Miller (1901) foi mais longe: cair numa ratoeira era ser vítima e perder algo de valor; uma ratoeira vazia, ficar livre de calúnias e de concorrentes; armar uma, descobrir a tempo os planos dos inimigos. Hoje, a ratoeira costuma aparecer quando você está montando uma defesa, ou teme cair numa.
O que a psicologia vê num sonho com rato?
O que mais marca o sonho com rato é o nojo. Psicólogos costumam ler esse sentimento com gentileza: ele fala menos de você e mais daquilo que o rato representa. Uma preocupação que rói aos poucos, uma vergonha guardada, uma dívida, uma dúvida que trabalha dentro das paredes.
Na linha de Jung, os animais dos sonhos costumam ser lidos também como forças da própria pessoa. Por esse ângulo, o rato pode ser uma parte sua: a esperteza de sobreviver com pouco, a vontade de sumir quando as coisas apertam. E o que você faz com ele importa: fugir, espantar, pegar ou matar contam etapas diferentes do mesmo movimento.
Uma pergunta para guardar
O que na sua vida anda sendo roído aos poucos, em silêncio, sem que você tenha parado para ouvir?
O seu rato apareceu na cozinha da casa onde você cresceu, às três da manhã, e quem estava na sala era a sua mãe. Nenhum verbete de Serrano ou de Miller sabe disso: eles contam o que o rato significou em geral, não em que cômodo o seu passou nem na véspera de quê. Esses detalhes são o começo da resposta. O Dreamlock, um diário de sonhos na App Store para iPhone, guarda cada um deles: você conta o sonho em voz alta, e ele lê e lembra por você.
